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TENERE


Ela flutuou do alto de sua sombra. Ela estava flutuando. As ondas acariciavam suas pernas para se esconder da luz. Segurada pelo sol, ela flutuou neste estranho quarto que não era nem um celeiro nem qualquer outra coisa. Uma daquelas peças que nunca são descritas. Há pilhas de lembranças ou às vezes elas se acumulam. Ela estava flutuando nas memórias amontoadas como uma onda ensolarada 

 

 trabalho da fotógrafa Letícia Zica transita com exatidão e equilíbrio entre sua poética e a firmeza de sua concepção estética, de tal maneira que, se analisado em sua integridade, sua produção se torna uma coesa e significante visão sobre algumas das questões que perpassam a vida de mulheres brasileiras do séc. XXI. Usando o próprio corpo como ponto de partida, suas fotografias constroem uma ponte sensível que a conecta a outras mulheres, dissipando as barreiras das diferenças individuais e criando um panorama crítico que, em linhas gerais, se debruça sobre situações que são constantemente vividas por todas que compartilham deste gênero. Núcleo, neste ponto, não se configura enquanto exceção e, no entanto, transcende a produção anterior no que diz respeito ao trato dado ao seu foco de pesquisa e labor. Através de um silencioso e delicado acordo feito com sua mãe e sua avó, a fotografa explora a história de três gerações de mulheres de sua família, sendo ela mesma uma integrante. A série composta por nove fotografias em preto e branco, ressaltadas em alto contraste afim de destacar a figura humana, se utiliza da nudez enquanto o gênero mais apropriado para a exposição metafórica das três mulheres em enquadramento, dando estopim a um processo difícil onde, a medida em que elas desvelam seu corpo para a câmera, as marcas do tempo se tornam visíveis e as inúmeras barreiras que cercearam a liberdade do corpo feminino ao longo dos anos são transpostas. A série foi construída através da interação gestual entre Zica, sua mãe e sua avó e, ao logo do processo, a fotógrafa conduziu o ensaio pedindo para que elas tentassem em gestos o que significavam as mulheres de sua família, criando um vocabulário visual inaudito que possibilita o contato com aquilo que é mais secreto em cada uma delas. Além disso, colaborando para que o trabalho aflorasse em sua potência poética, as fotografias foram feitas em um dos quartos da casa da avó que, outrora, abrigou todos os seus filhos e hoje se tornou um quarto de hóspedes na cidade Dores do Indaiá, no interior do estado de Minas Gerais. Embora a escolha do local tenha sido intuitiva, o espaço agregou ao trabalho uma poética que reflete a família através do tempo e sua relação com a cidade natal da avó. Diante de uma janela aberta, voltada para a rua, o momento vivido no ensaio fotográfico poderia ser visto por quem passasse pela rua em uma cidade onde todos os moradores se conhecem. Este momento em que a fotógrafa estava também de passagem pela cidade, acolhida pelo mesmo quarto que utilizou em seu ensaio, se tornou um encontro sentimental extremamente fecundo para as três mulheres. A exposição de momentos delicados é, também, uma das poéticas presentes no trabalho de Zica, que por vezes trabalha com o desvelamento de momentos emocionais próprios ou coletivos. Através deste trabalho é possível abordar não só o imaginário íntimo de três mulheres que possuem vínculo afetivo e sanguíneo, como também, expandindo o campo individual, três gerações familiares que se inicia em uma cidade do interior do estado de Minas Gerais e culminam na metrópole de São Paulo, onde atualmente a fotógrafa reside. Trabalhar a memória individual e coletiva é uma urgência em um momento histórico em que o esquecimento impera enquanto absoluto, tornando a história das mulheres de uma família um potente disparador para histórias maiores, nas quais muitos se identificam. Perscrutar raízes é um começo digno para pensar as ramificações da trama que compõem o cenário contemporâneo, afinal, é a partir do núcleo que todas as coisas vivas se desenvolvem. 

Texto escrito por Lara Teixeira 

Core


Letícia Zica's work transits with accuracy and balance between her poetics and the firmness of her aesthetic conception, in such a way that, if analyzed in its integrity, her production becomes a cohesive and significant vision on some of the questions that pervade brazilian woman's life of the XXI. century. Using her own body as a starting point, her photographs build a sensitive bridge that connects her to other women, dissipating barriers of individual differences and creating a critical panorama that, in general terms, focuses on situations that are constantly experienced by all who share this gender. Core, at this point, does not set itself up as an exception and nevertheless transcends the regard to the treatment given to its research and labor focus. Through a silent and delicate agreement made with her mother and grandmother, those photographs explores the history of three generations of women in her family, and herself as a member. The serie consists of nine black and white photographs, highlighted in high contrast to highlight the human figure, uses nudity as the most appropriate genre for the metaphorical exposure of the three women in the frame, giving rise to a difficult process where, the measured in that they unveil their bodies to the camera, the timelines become visible and the numerous barriers that have curtailed the freedom of the female body over the years are transposed. The serie was constructed through the gestural interaction between Zica, her mother and her grandmother and, at the time of the process, the photographer conducted the essay asking them to try in gestures what the women of her family meant, creating an unprecedented visual vocabulary that enables contact with what is most secret in each of them. In addition, collaborating to bring the work to its poetic power, the photographs were taken in one of the rooms of the grandmother's house, which once housed all her children and today has become a guest room in the city of Dores do Indaiá, interior of the state of Minas Gerais. Although the choice of location was intuitive, the space added poetry to the work that reflects the family through time and its relationship with the grandmother's hometown. In front of an open window, facing the street, the moment lived in the photographic rehearsal could be seen by anyone passing through the street in a city where all the locals know each other. This moment when the photographer was also passing through the city, welcomed by the same room that she used in her essay, became a sentimental encounter extremely fruitful for the three women.The exhibition of delicate moments is, also, one of the poetics present in the work of Zica, that sometimes works with the unveiling of emotional moments of own or collective. Through this work it is possible to approach not only the intimate imaginary of three women who have affective and sanguine bonds, but also, expanding the individual field, three family generations that begins in a city of the interior of the state of Minas Gerais and culminate in the metropolis of São Paulo, where the photographer currently lives. Working the individual and collective memory is an urgency in a historical moment in which oblivion reigns as absolute, making the history of women in a family a potent trigger for larger stories in which many identify. Scrutinizing roots is a decent start to think about the ramifications of the plot that make up the contemporary scenario, after all, it is from the core that all living things develop.

Text written by Lara Teixeira