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A série Não Cálice, da fotógrafa brasileira Leticia Zica, é fruto de um exercício delicado de libertação e denúncia. Um exercício de resistência, no qual mulheres foram convidadas para participar de um rito de afeto e coragem. Pensado inicialmente como uma coleção de moda feminista, o projeto pretendia trabalhar com a escuta de mulheres que sofreram ou sofrem abusos físicos e psicológicos devidos à condição de gênero. Durante o processo, foram entrevistadas de maneira anônima e, através de uma série de perguntas formuladas pela fotógrafa, deram pistas para a criação de uma coleção roupas baseadas nas emoções de quem as vestem. O contato entre essas mulheres acabou por resultar em uma série de fotografias em preto e branco que se utilizou da nudez para refutar as insistentes objetificações presentes na temática do nu feminino e trazer a tona não só a pluralidade estética das mulheres, como também um campo simbólico que contrasta força e fragilidade, exposição e anonimato. 

O nu sempre foi uma das temáticas mais relevantes na pintura, na escultura e na fotografia e, para os olhos do espectador, nunca foi de caráter inusitado encontrar o corpo feminino exposto como objeto do olhar. No entanto, as modelos que encontramos em livros de história da arte e nas produções de muitos fotógrafos são, em linhas gerais, anônimas e pouco se sabe para além de suas formas e relevos. Sob espectro de uma tradição de artistas do gênero masculino, o nu é, hoje, discutido de maneira crítica como nunca antes fora e, nesse contexto, a série Não Cálice, é não só uma maneira de visibilizar a história das modelos de seu projeto, mas também uma via sensível para dialogar humanamente, através da arte, sobre questões sociais que, ainda hoje, acometem milhares de mulheres no Brasil e no mundo.

O trabalho nos mostra relações claras em seu simbolismo. O pente que se pendura, como um machado colado à árvore recém cortada, também adestra os cabelos de uma mulher cujo rosto não pode ser visto; uma mulher mostra os seios mas a face nos resta ocultada, inclinada para o canto do frame; uma senhora mostra a pele e as ações do tempo sobre seu corpo.  A palavra Cálice, e sua ambiguidade sonora criada com a ideia de calar-se, amplia as dimensões do trabalho e nos leva para uma concepção receptiva do feminino, reforçada pela cultura cristã e cultivada na ideia conservadora que enxergou na mulher o símbolo as subserviência. O discurso, na fotografia, se dá através da minúcia e só pode ser alcançado pela observação demorada, pela atenção exigida. O discurso se encontra no vão onde a palavra não cabe.

Em uma tentativa contínua de reconhecimento de si própria e das pessoas que a circundam, o sensível trabalho da fotógrafa sempre se utilizou do corpo para tecer suas poéticas. Um corpo que, diante de seus olhos, é constantemente fragmentado, exposto, amplificado. Um corpo solto no espaço, único e múltiplo, individual e coletivo e, sobretudo, sujeito às intempéries do espaço e do tempo.

Texto escrito pela curadora Lara Teixeira. 

The Não Cálice serie, made by the Brazilian photographer Leticia Zica, is the result of a delicate exercise of release and complaint. A resistance exercise in which women were invited to participate in a rite of love and courage. Initially thought as a feminist fashion collection, the project intended to work with listening to women who have suffered or suffer physical and psychological abuse due to gender condition. During the process, they were interviewed anonymously and through a series of questions put by the photographer, gave clues to the creation of a clothes collection based on the emotions of those who wear them. The contact between these women eventually result in a series of photographs in black and white that was used nudity to refute persistent objectifications present in the female nude theme and bring out not only the aesthetic plurality of women, as well as a symbolic field contrasting strength and fragility, exposure and anonymity.The nude has always been one of the most important themes in painting, sculpture and photography, and for the viewer's eyes, never was unusual character find the female body exposed as object of the gaze. However, the models we find in art history books and many photographers productions are, in general, anonymous and little is known beyond its forms and reliefs. Under specter of a tradition of male artists, the nude is now discussed critically as never before out and, in this context, Não Cálice serie is not only a way to visualize the history of models of your design, but also a sensible way to humanely dialogue through art, on social issues that, today, affecting thousands of women in Brazil and worldwide.The work shows clear relationships in its symbolism. The comb that hangs like an ax stuck to the freshly cut tree, also trains the hair of a woman whose face can not be seen; a woman shows her breasts but the face remains in hidden, tilted to the frame corner; a lady shows the skin and the actions of time on your body. The word Chalice, and his sonorous ambiguity created with the idea of ​​silent, expands the dimensions of work and leads to a receptive conception of women, reinforced by the Christian culture and cultivated in the conservative idea that saw the woman the symbol of subservience. The speech, in photography, is through the minutia and can only be reached by long observation, the attention required. The speech is in the range where the word does not fit.In a continued attempt to recognize itself and the people who surround the sensitive work of the photographer always used the body to weave her poetic. A body that, by her eyes, is constantly fragmented, exposed, amplified. A loose body in space, single and multiple, individual and collective, and above all subject to the elements of space and time.

Text written by the curator Lara Teixeira.